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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Psicose e arte: reabertura do Complexo Cultural Museu Bispo do Rosário


O Complexo Cultural Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea ( http://www.museubispodorosario.com/ ) localizado dentro do espaço da antiga Colônia Juliano Moreira reabre com  as mostras coletivas Ressuscita-me e Sem Fronteira, com curadoria de Wilson Lazaro.
No dia 23 de março foram abertas as mostras coletivas Ressuscita-me e Sem Fronteira, com curadoria de Wilson Lazaro. Além das obras do Arthur Bispo do Rosário, também são expostos trabalhos inéditos de ex-internos da Casa de Saúde Dr. Eiras/Paracambi-RJ e artistas convidados como Heleno Bernardi, Carmen Calvo, Miroslaw Balka, entre outros.
- Na Galeria 1, a exposição coletiva “Sem Fronteiras” é composta de pinturas, fotografias, vídeos e instalações. As obras expostas transgridem o limite entre a loucura e sanidade, apresentando zonas de invisibilidade e preconceito. Nela é exibida a arte que rompe limites, que reorganiza paradigmas. Na serie apresentada por Javier Tellez, o próprio artista considera como um “passaporte cinematográfico para permitir que as pessoas de fora possam estar dentro”. A exposição ainda traz trabalhos dos artistas Anna Maria Maiolino, Cildo Meireles, Arthur Bispo do Rosário, Alexandre Navarro Moreira, Laila Demashqieh, Miroslaw Balka, Wagner Malta Tavares e Aurora dos Santos.
- “Ressuscita-me”, exibida nas Galerias 2 e 3, expõe pela primeira vez os trabalhos de pacientes que foram  internos da Casa de Saúde Dr. Eiras/Paracambi-RJ, uma instituição manicomial que sofreu um processo de intervenção do estado em 2000  e culminou com seu encerramento em 2012. A mostra, que evidencia a sensibilidade dos criadores, tem participação de artistas convidados: Heleno Bernardi, Graciela Sacco, Artur Barrio, Jhafis Quintero, Carmen Calvo e Arlindo Oliveira.

Para essas exposições, Wilson Lazaro selecionou obras que fazem parte do conceito do Complexo Cultural: um ambiente de transformação através do encontro com a arte, que possibilita a construção de novas ressignificações. “Um espaço que promove a ampliação do acesso à cultura e a valorização do desenvolvimento humano”, diz Wilson. E completa,  “queremos formular e gerir, através do diálogo com a sociedade, projetos culturais que enfrentem o desafio da democratização do acesso e da garantia da diversidade social e cultural”.

Sobre o Complexo Cultural Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea
Localizado no bairro da Taquara, na antiga Colônia Juliano Moreira, o Complexo Cultural Museu Bispo do Rosário começou a ser construído na década de 80 em homenagem ao grande artista Arthur Bispo do Rosário, que viveu 50 anos na Instituição. Lá ele confeccionou seu acervo de 806 obras. Dentro dele funcionam a Escola Livre de Artes/ ELA – e um Conjunto de Galerias, tudo vinculado ao Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira.

Sobre o Arthur Bispo do Rosário
Arthur Bispo do Rosário (1909-1989) viveu 50 anos em uma instituição psiquiátrica carioca de caráter manicomial, onde produzia as suas obras caracterizadas pelo colecionismo, catalogação e ordenação compulsiva de objetos dos mais variados. Estes eram, muitas vezes, revestidos com linhas de costuras azuis obtidas de seu próprio uniforme de interno. Também utilizava suportes diversos e palavras, como os nomes próprios ou outras de cunho ficcional impreciso.
Apesar de não ter passado por qualquer educação formal, seus trabalhos aproximavam-se de movimentos como: Dadaísmo, Surrealismo, Artes Contemporânea, Conceitual, Concreta e Neoconcreta. Em 1995, seu trabalho foi apresentado na 46ª Bienal de Veneza, o primeiro importante evento que o levaria ao reconhecimento internacional. Hoje, Bispo figura na galeria dos mais importantes artistas contemporâneos do país e possui 804 obras catalogadas.

Serviço:
Visitação 25 março a 14 setembro 2013
Segunda–feira a sábado, das 10h às 17h
Entrada franca | Estacionamento gratuito
Complexo Cultural Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea 
Estrada Rodrigues Caldas, 3400 – Edifício Sede

Taquara – Jacarepaguá


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sem limite

Texto de Jorge Forbes fala sobre a sociedade atual e a ausência de limites que foram deslocados pela evolução científica. 
Sem Limites
Um dia talvez, quando os historiadores se debruçarem sobre os últimos vinte anos do século vinte, notarão que uma das suas mais claras características foi o estabelecimento do “sem limite”. Sem limite de distância, com a revolução da Internet; sem limite da cura, com novos medicamentos, clonagens, partos fabricados; sem limite da segurança, com carros blindados e guardas armados; sem limite da beleza, com plásticas estéticas e dermatologia cosmética. E esses historiadores constatarão um paradoxo: ao contrário do que o “bom senso” poderia esperar, não acompanhou esse formidável progresso uma taxa equivalente de felicidade e de bem estar, ao contrário, o que se viu foi o crescimento dos quadros depressivos e das toxicofilias. Surpresa! O que aconteceu? Em um primeiro momento pensou-se que os novos métodos não traziam a almejada felicidade por estarem sendo sub-utilizados e, em conseqüência, tocou-se a multiplicá-los. Se um guarda é pouco, contratam-se dois, ou três, ao mesmo tempo que transforma-se sua casa em casamata, nada ficando esta a dever às celas de um presídio de segurança máxima. Conclusão: é a vítima em potencial, em seu afã de proteção, que acaba na cadeia, e, pior, por auto-aprisionamento.

Raciocínio semelhante pode ser empregado para os outros novos remédios tecnológicos. Tomemos a beleza. Descobriu-se que o “botox” tem propriedades paralisantes da pele que propiciam o desaparecimento das rugas, porta-vozes da velhice. O local onde é mais aplicado é na testa, fazendo-a ficar “lisinha” (sic), é o efeito pretendido. Ocorre que, ao ser aplicado no meio da testa, muda a expressão facial da pessoa, pois, as laterais estando livres, as sobrancelhas se arqueiam só nas pontas externas reconstituindo, em anima-nobili (o nome acadêmico da espécie humana), os mesmos traços das terríveis bruxas das histórias em quadrinhos. Belas, sem dúvida, mas bruxas. Aí, para retirar o efeito bruxa, só aplicando um pouquinho mais de “botox” nas laterais. Pronto, agora não é mais bruxa, é só uma “Barbie” aparvalhada, com cara de vazio. Finalmente, é o prêmio de consolação, basta aguardar alguns meses para o “botox” ser reabsorvido, voltando tudo à velha forma; no caso do “botox” ainda dá para remediar.

Onde está o limite? Deslocadas pelas evoluções científicas de seu terreno chamado “natural”, as pessoas sofrem hoje de uma verdadeira síndrome do “sem limite”. Será que a única solução é o limite da dor, como quando uma pessoa se vê encarcerada em sua própria casa (ainda está na memória de todos a história do banqueiro que morreu queimado em seu banheiro super-protegido), ou de quando seu rosto perdeu a vida? Ou, ainda, seria uma solução marcar o próprio corpo na tentativa de fixar um limite? Da auto-mutilação às tatuagens e aos piercings a fronteira é tênue.

O que esperamos é que a crítica esclarecida faça um trabalho de separação entre os formidáveis avanços científicos dessas últimas décadas e a ideologia a eles parasitária do tudo-pode, tudo-tem-jeito. Caberá a médicos e pacientes e, de uma forma mais ampla, a fornecedores e usuários, responsabilizar-se pelo estabelecimento de novos limites. Deverá se privilegiar aquilo que se quer e não o que se pode.

A época da globalização que estamos entrando exige de cada um o exercício de seu próprio limite, que hoje em dia vem menos da “natureza” que da própria escolha responsável. É aquilo que eu quero que me restringe e não o que o outro, o tempo, por exemplo, me impede de conseguir. Ah, mas não é nada fácil o exercício da expressão do querer. A pergunta: “Você quer o que você deseja?” é uma das mais difíceis de responder, tanto por mulheres, quanto por homens. Mas isso já é assunto para um próximo artigo, porque também aqui há limite.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Novas nomeações na atualidade

As novas nomeações e seus efeitos nos corpos
Nieves Soria Dafunchio


A psicanálise ensina que eu, corpo e realidade são construções convergentes, impossíveis sem a mediação do simbólico. A pergunta que me surge, tendo em vista nosso próximo Encontro, é sobre os efeitos do declínio da nomeação paterna e da emergência de novas nomeações sobre os corpos

Se bem encontramos antecipações desde o começo do ensino de Lacan, é, sobretudo, no final do mesmo ensino que nomeação e enlaçamento se tornam conceitos indissolúveis, equivalentes. Lacan estabelece a nomeação edípica como um enlaçamento borromeano entre os três registros, por um quarto anel, de modo que nenhum registro fica diretamente implicado em relação a outro. Quando esse é o tipo de enlaçamento, o corpo é uma construção que se sustenta em uma função eminentemente simbólica que faz mediação entre o corpo imaginário e o corpo real.
Nessa mediação há lugar para o ato da palavra, coração da intervenção analítica, já que o gozo corporal está intimamente atravessado por uma ordem simbólica flexível, mesmo que não extensível.
As novas nomeações, ao contrário, tornam mais presentes as dimensões imaginária e real do corpo, colocando uma dificuldade para a intervenção analítica, a cuja modalidade clássica às vezes os novos sujeitos parecem impermeáveis.
Em um extremo encontramos o nomear para, um tipo de nomeação que nos anos setenta (em seu Seminário Les non dupes errent) Lacan assinalou como se sobrepondo cada vez mais à nomeação paterna. Trata-se de um tipo de nomeação para qual geralmente basta a mãe que designa um projeto para o filho, encerrando-o numa ordem de ferro. Lacan indicou que nesses casos o social toma a prevalência de nó. Seu correlato clínico são os corpos enrijecidos em uma nomeação que localiza o gozo sem flexibilidade e que dá lugar às tribos monossintomáticas próprias da época, nomeações anônimas que têm um efeito de ser, de enlaçamentos tais como: anorexias, bulimias, obesidades, adições, TOC, ataque de pânico, fobia social, etc.
Na prática com esses casos a pergunta que emerge é como introduzir um equívoco na rigidez da nomeação propiciando por sua vez uma trama simbólica mais ampla para que o sujeito possa realizar um novo enlaçamento prescindindo daquele da norma de ferro. Como conseguir com o corte e a retificação operar ao mesmo tempo introduzindo o equívoco e orientando uma nova trama.
No outro extremo encontramos nomeações lábeis, nomeações imaginárias que deslizam e se fazem presentes sob a modalidade de um gozo disperso, vazio, no centro da experiência analítica desses sujeitos. Sujeitos errantes para os quais não é possível encontrar nenhum efeito forte de ser, tampouco de desejo, sujeitos que declaram não saber o que querem nos distintos âmbitos de suas vidas. Trata-se de sujeitos que são, sucessiva ou simultaneamente, polissintomáticos, apresentando uma estrutura polimorfa, cujo correlato é um corpo que não cai em nenhum lugar.
Na prática com esses casos a pergunta que se pode colocar é como introduzir uma orientação que possibilite uma tessitura do simbólico que sustente o corpo e faça furo localizado, afastando-o da pura dispersão do real, como orientar o tratamento em uma função efetiva de nomeação.
Interessa-me a investigação dessas intervenções que, longe da ortodoxia clássica, mas muito próxima da precisão que possibilitam a lógica e a topologia, nos obrigam a cada vez reinventar o ato da palavra.

Fonte:
http://www.enapol.com/pt/template.php?file=Textos/Las-nuevas-nominaciones_Nieves-Soria-Dafunchio.html


III Simpósio de Psicanálise de Niterói
28 de setembro de 2013, sábado
Auditório do Edifício Central Park
Rua Otávio Carneiro, 143 - Icaraí - Niterói - RJ

Inscrições:simposiodepsicanalisedeniteroi@gmail.com